quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Sexo, morte e mistério

Sexo, morte e mistério

Diretor assassinado no melhor momento da carreira




Acabou de forma trágica a vida de Bryan Charles Kocis (1963-2007), ou Brian Phillips (foto) nos créditos dos filmes. Proprietário, produtor e diretor do estúdio
Cobra Vídeo (EUA), lançou 18 filmes entre 2001 e 2006, foi encontrado morto no último dia 24 de janeiro, em Dallas Township, Pennsylvania, depois que os bombeiros atenderam um pedido de socorro para apagar um incêndio em sua residência. Nela encontraram o homem de 44 anos que foi escoteiro na infância, fotógrafo na juventude e nos últimos anos ganhava a vida dirigindo e produzindo filmes bareback estrelados por rapazes muito, muito jovens. A autópsia revelou que primeiro Kocis foi ferido com várias punhaladas e estrangulado, depois o corpo e a casa foram incendiados.

O caso é macabro, tem características de acerto de conta entre “gay capos” de uma máfia que pouca gente desconfia que exista e logo atrai a imprensa marrom, ávida por escândalos, ainda mais quando envolve uma atividade por si só escandalosa. Na busca de esclarecimento do assassinato a polícia investiga todas as hipóteses, principalmente as querelas nas quais estava metido o defunto, como a que envolve ele e o ator Brent Corrigan, um verdadeiro barraco no mundo do pornô gay ocorrido no fim de 2006. Na casa incendiada em janeiro foi achada e divulgada uma lista com dez ameaças que supostamente Kocis fazia aos atores para evitar que eles deixassem o estúdio. A ameaça número 1 diz: Você deixará Cobra Vídeo para trabalhar em outra companhia de vídeo gay sobre meu cadáver. A lista completa de ameaças cita a Falcon Studios e pode ser lida na internet; se ela for um documento verdadeiro e fizer parte do inquérito como prova de alguma coisa, fortalece a suspeita de que alguém do metiê cumpriu à risca aquelas palavras. Seria Corrigan o assassino? Estaria a Falcon envolvida? A policia espera responder todas as perguntas em breve. Mas a questão Kocis x Corrigan não parece ser a única polêmica envolvendo o diretor, o passado dele inclui uma bancarrota e a prisão pelo rapto de um garoto de 15 anos na cidade de South Whitehall Township, Pennsylvania, em 2001, mesmo ano que abriu o estúdio Cobra. O raptado, hoje com 20 ou 21 anos, deverá também ser investigado.

A disputa que envolve o ator Brent Corrigan é recente e em andamento; uma audiência estava marcada para o próximo dia 21 de fevereiro. Não creio que Corrigan seja muito conhecido pelo público brasileiro. Corpo de adolescente, cabelos negros e lisos, o que identifica é uma estrela verde tatuada no lado direito do quadril, quase na bunda; ele é versátil, estrelou, como Fox Ryder, The Velvet Mafia I e II (Chris Steele, 2006), da Falcon Studios, um dos melhores filmes do ano passado, quiçá o melhor na categoria “com camisinha”. Nesse mesmo ano Corrigan fez seu último filme no estúdio Cobra Video intitulado Take It Like a Bitch Boy (Kocis, 2006) onde há a melhor cena dirigida por Kocis, a da gozada e golfada anal entre os atores Cody Lockheart e Cameron Lane. Corrigan também estrelou um filme curta-metragem non-porn chamado Tell Me (Jody Wheeler, 2006). Não vi esse curta, o trailler está no YouTube e deixa entender que o enredo é violência doméstica contra adolescentes; Corrigan aparece no trailler com o rosto todo latanhado. Será ficção baseado em fatos reais? Com uma investigação em andamento um filme como Tell Me contruibui pra alimentar todas as especulações sobre os fatos que envolvem esta a morte.

O motivo do desentendimento entre Kocis e Corrigan foi por este ter declarado que atuou em filmes do estúdio quando tinha menos de 18 anos, o que deixou Kocis em maus lençóis. Depois da declaração de Corrigan os vídeos em que ele atua quando era menor de idade (Every Poolboy's Dream e Schoolboy Crush, ambos de 2004; Bareboned Twinks e Casting Couch 4, ambos de 2005) foram recolhidos das lojas, o que, evidentemente, foi um prejuízo que amargaram a Cobra Video e a distribuidora Pacific Sun Entertainment. A partir de então a produtora passou a explorar a imagem do ator à exaustão numa manobra que alguns acusam de ter sido estrategicamente pensada não apenas para compensar os prejuizos pela retirada de quatro títulos do comércio, mas para degradar a imagem do ator. Depois, numa manobra bem capitalista, o nome Brent Corrigan foi registrado como uma marca da produtora, o que o impossibilita de continuar usando o nome com o qual fez carreira, seu nome verdadeiro é Sean Paul Lockhart.

Os filmes de Kocis surgiram com a onda dos sucessos dos filmes bareback do fim dos anos de 1990 e começo da primeira década. Ele adotou um estilo parecido com os estúdios europeus (SEVP, Eurocreme, Au Natural, Tipo Sesso), muito mais do que com os americanos (Hot Desert Knights e Treasure Island Media). Seu bareback é leve e romantizado, sem fetichizar o esperma nem fazer seus atores disputarem o título do mais guloso da galáxia, se aproxima do estilo do diretor Vlado Iresch ou dos filmes pré-AIDS. Não é, portanto, um inovador, é mais um aproveitador, sem que essa palavra possa parecer injuriosa. O título do seu último filme Take It Like a Bitch Boy é uma simplificação de Ditch the Bitch and Make the Switch (Don Komar, 2005) da DJK Productions, da República Tcheca, sobretudo os estilos são parecidos, os enredos não. O pior de seus filmes não é a falta de originalidade, o pornô gay vive em simbiose com o sucesso alheio, o pior dele é um ritmo maçante e incerto, a produção é indigente para os padrões americanos e não pode ser classificada de amadora como a produtora se auto-intitula. A melhor coisa dos filmes eram os rapazes, a boa cena da gozada e golfada anal em Take It Like a Bitch Boy se deve muito mais ao desempenho dos atores Lockheart e Lane do que à direção. Ainda assim não há dúvida de que Kocis estava vivendo a melhor fase na carreira de diretor quando foi assassinado. São filmes com atores pouco ou mesmo desconhecidos, nem podia ser diferente, com tão pouca idade só podiam ser estreantes, entretanto eles pareciam meio atônitos, com um desempenho débil, faltava o fogo latino que os europeus sabem queimar com muito pau. Se não fosse ilegal fazer filmes pornôs com menores nos Estados Unidos e praticamente no mundo todo, Kocis talvez utilizasse exclusivamente mão-de-obra infantil. No elenco da produtora encontramos alguns rapazes que ou são menores ou são tratados quimicamente para não envelhecer, como Aaron Phelps e Brent Everett, mas a pérola do elenco era mesmo Corrigan e perder esse pitel para qualquer outro estudio poderia ser um golpe de milhões de dólares.

Mas a Falcon tem um estilo completamente diferente da Cobra, são os filmes da Costa Oeste e os da Costa Leste em oposição não apenas geográfica. A Falcon faz superproduções com superior qualidade há várias décadas, é a produtora do sonho de nove entre dez estrelas do pornô gay. Seus atores são adultos com cara de macho, desde que a AIDS apareceu o estúdio só faz filme de sexo com camisinha mas é suficientemente versátil a ponto de aceitar o barebacker Corrigan no seu cast. O argumento de The Velvet Mafia I e II, escrito por Austin Deeds, é a disputa entre dois estúdios de filmes pornô gays pela exclusividade de contratação de um ator, cada estúdio pertence a uma família mafiosa californiana, os Avalon e os Starr, arquiinimigas. O disputado é justamente Fox Ryder/Brent Corrigan, num raro filme pornô gay com cena de assassinato. The Velvet Mafia já se tornou um sucesso pelo elenco reunido (Matthew Rush e Chad Hunt entre eles), pelos figurantes Chi Chi La Rue como Warren Star e Paul Barresi como Mason Avalon, eles mesmos veteranos no ramo e conhecidos como verdadeiras víboras.

Outra vez a vida imita a arte, a ficção se confunde com a realidade, o porn system se parece com Hollywood. Poucos se lembram do caso misterioso que aconteceu em Beverly Hills em 1947, do assassinato brutal da atriz Elizabeth Short que só foi esclarecido em 2003 revelando as relações intimas entre cinema e crime. O caso veio às telas em dois filmes, o primeiro L.A. Confidential (Curtis Hanson, 1997) e o segundo Black Dahlia (Brian de Palma, 2006), ambos baseados no livro de James Ellroy, Black Dahlia. O caso da morte de Kocis é uma investigação ainda em curso e o seu desenrolar será acompanhado por este blog. Uma morte violenta que envolve interesses contrariados num mercado cheio de ambições, as circunstâncias têm de ser esclarecidas. A investigação desse crime pode ser usado como argumento pra outro filme pornô. Dá pra imaginar o comissário durão interrogando os atores e técnicos, vendo os filmes, lendo os roteiros e os contratos das produtoras, deve acabar em sexo, como sói acontecer. Não apenas em sexo, na vida real deve acabar com os culpados na cadeia. Aí teremos argumento pra mais um filme, pois filme de sexo na cadeia é tudo!






Um comentário:

  1. Meu, que história maluca, realmente dava um filme e , "como sói acontecer", a realidade é muito mais doida que a ficção... Aguardarei os desdobramentos.

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