segunda-feira, 30 de abril de 2007

O cu protagonista

O cu protagonista

A Era de Ouro dos Passivos




A contribuição dos homosexuais masculinos à humanidade não se deve unicamente à obra de gays célebres em todoso os campos do conhecimento ao longo da história, talvez venha daí a reivindicação dos homossexuais por uma inclusão social não discriminatória, enquanto parte da sociedade teima em negar o que está firmemente enraizado na civilização e na natureza do ser humano, portanto universal sob qualquer ponto de vista. Diferente de pênis e buceta, o cu é um órgão que todos possuem indistintamente, portanto é tão universal quanto a contribuição dos homossexuais. Por sua universalidade e conformação geométrica o cu poderia simbolizar os mais altos valores democráticos em todos os países livres do mundo, nas vias públicas tomaria o lugar do fálico obelisco, os parlamentos ostentariam uma representação alegórica em local de privilegiado, equivalente ou em substituição a todos os outros símbolos existentes, cada qual mais obscuro que o outro, o cu não causa estranhamento, é familiar como rosquinhas e donuts. Mas num mundo cada vez mais belicoso e menos utópico, órgãos como o cu e o coração são cada vez menos evocados como símbolos de fraternidade entre os homens.

Uma contribuição pouco considerada é o fato dos homosexuais masculinos terem erotizado o sistema digestório humano; gostaria que algum evolucionista explicasse se isso influencia as leis científicas da origem e da evolução do Homo sapiens ou se suas consequências são apenas sociais. Essa discussão tão pouco é levada a termo nos filmes de sexo explícito, nem é mesmo esse seu papel, nele temos apenas a representação fidelíssima do que ocorre na prática. Tenho escrito que esses filmes são uma espécie de documentário com pouca cientificidade, por isso são tão divertidos; constantemente reafirmo essa tese.

A erotização do sistema digestório humano acontece quase sempre pela penetração ritmada do pênis na cavidade superior (boca) e em seguida, ou ao mesmo tempo, a penetração do pênis na cavidade inferior (cu). O sistema digestório é de vital importância pela complexidade de funções que executa e pela extensão que ocupa na anatomia. Entre uma cavidade e outra está a cabeça, o tronco masculino e seus principais órgãos e glândulas. Entender o seu funcionamento e saber tirar o maior proveito do prazer sexual que ele é capaz de proporcionar é atingir um prazer inigualável, isso não é nenhuma tese.

Quase sempre os filmes de sexo explícito, gay ou hétero, colocam demasiada ênfase no pênis, um órgão do sistema reprodutor, um sistema incompleto em machos e fêmeas, já que sua finalidade só pode ser alcançada com a participação do gênero feminino e masculino, ou seja, de dois indivíduos diferentes, opositores e, consequentemente, incompatíveis. As relações reprodutivas são bombas-relógios de dois tipos: armadas e desarmadas. Comparativamente, os sistemas reprodutores de ambos os sexos são vielas enquanto o sistema digestório é uma via expressa. Os filmes pornô abordam qualquer tema, mas nunca vi um sobre reprodução sexuada nem em filmes hétero. Não seria a superpopulação humana um assunto excitante? A ênfase no pênis determina o êxito de muitos filmes, devido, ou talvez por isso mesmo, neles este órgão aparecer desvencilhado de seu papel no sistema reprodutor, metido no sistema digestório.

Hedonistas, instintamente propensos para a libertinagem, com gosto pela política, mas já sem nenhum compromisso com a propagação máxima dos genes, os homens inventaram o sexo diletante e o filme de sexo explícito. A grande, talvez a maior, contribuição desse gênero para história da cinematografia foi a invenção da gozada apoteótica, aquela fora do corpo que é fotografada nos mínimos detalhes, muitas vezes exibida em slow motion, isso aconteceu no começo dos anos de 1970. Assistimos paus ejaculando feito vulcões, fontes, mangueiras, bisnagas de molho, cântaros, encerrando em grand finale as trepadas. Alguns atores ficaram célebres pelo vigor do jato e quantidade de líquido seminal. O pênis foi, então, o protagonista incontestável da tênue trama de que são feitos os filmes pornôs, era o reinado dos intérpretes sexualmente ativos. Ser passivo, até mesmo nos filmes pornô gays, parecia ser um desdouro, talvez espelhando uma moral que estabelece a hierarquia entre os papéis sexuais, com o fodido por baixo e o fodedor por cima. Isso começou a mudar com o aparecimento de atores passivos no melhor estilo mandão. Imperativos, eles minaram a hegemonia do pênis protagonista. Paus que comeram Kevin Williams ou Joe Stefano nada mais eram do que servis realizadores dos caprichos de um hungry bottom que comandava a ação. Qualquer ativo diante desses passivos famintos se tornam meros coadjuvantes. Demorou mais de dez anos para acontecer essa rearrumação; nos anos de 1980 os paus entraram na órbita anal e os filmes os seguiram. Finalmente o pornô gay estava com seu modelo completo.

Enquanto na astrologia for controversa a data do início da Era de Aquário, motivos bastante razoáveis fazem supor que na terra uma Era de Ouro dos Passivos é sua determinante.

Com o aparecimento dos filmes com camisinha, o pau foi um pouco mais depreciado do seu papel de estrela, chegando ao nível de um dildo, pois há pouca diferença entre um pau de plástico e um plastificado. Mas a mudança de órbita dos filmes pornô foi tal que nem nos filmes bareback, dos paus descamisados, eles recuperaram o estrelato de outrora. Líquido e certo, na Era de Ouro dos Passivos, são os cus que agora estão ejaculando feito vulcões, fontes, mangueiras, bisnagas de molho, cântaros. Nos filmes bareback o esperma tanto pode correr docemente como uma nascente de rio, como pode ser expelido com vigor e até em jorros. Pode formar um lago na depressão anal, pode ser expelido (felching ou snowballing em inglês) do cu para a boca do outro onde pode ser dividido entre um ou mais parceiros como um acepipe. Em
www.barebacked.com e www.xtube.com há clips que ilustram bem essas práticas. A invenção da gozada apoteótica pelo cu é mais uma contribuição do filme pornô para história da cinematografia.

Essa mudança de órbita não seria possível sem a contribuição dos botton de outrora como Casey Jordan, Chris Williams, Jeff Quinn, Christian Fox, Jon King, Chad Knight, entre outros cujos nomes me escapam. A lista dos intérpretes contemporâneos e seus cus protagonistas também é extensa e os filmes estrelados por eles estão bombando: Jeff Palmer, Devon, Sean Storm, Dawson, Ty Smith. Não confundir estes com bottons convencionais com Caesar ou com Dean Monroe, que conduzem a ação de forma submissa. Monroe, por exemplo, em Blackballed 5 (All Worlds Vídeo Wraps, 2006) dirigido por Chi Chi LaRue, dá pra oito negões superdotados mas fazendo cara de coitado; é o papel do passivo tradicional só que multiplicado por oito, ele parece fazer dupla penetração com o intuito de abreviar o filme e sua agonia, depois finaliza com as indefectíveis gozadas no peito. Caesar em Hardhat Gang Bang (Blue Men Productions, 2000), do mesmo diretor, dá pra um grupo igualmente numeroso de atores multiétnicos, entretanto cometendo as mesmas anacronias, sem uma gota de imperatividade. Nesses dois filmes, tão semelhantes, talvez Caesar e Dean Monroe tenham menos responsabilidade nestas interpretações equivocadas do que o diretor Chi Chi LaRue.

O papel do exclusivamente ativo está em declínio e os passivos em ascensão? Será que o público prefere os intérpretes versáteis, tendência que os estúdios apenas ratificam? Atores que fazem solo e o caso específico de selfsuckers como Ricky Martinez são uma tendência ou ele é um caso aberrante? Difícil dizer, Martinez é um cavalo árabe que corre qualquer páreo mas ele, que seria candidato a um grande top da atualidade, não tem uma ereção convincente, por isso se especializou com seu número de contorcionismo solo.

É raro hoje um filme pornô gay que não tenha num passivo superstar. Sensíveis ao mercado, os estúdios descambam pro mais escancarado apelo para garantir as boas vendas, acusação que já foi feita ao Cobra Vídeo, cujo exemplo mais perfeito é a capa de Fuck Me Raw (Cobra Vídeo, 2006), dirigido por Brian Phillips (Bryan Charles Kocis), que mostra Brent Corrigan pelado, de pernas abertas, com um fio de esperma pendendo do fiofó. Neste filme Corrigan desempenha o papel que o celebrizou no Cobra Vídeo e que foi assepsiado e plastificado recentemente no Falcon Studios.

Produtoras estamparem nas capas fotos dos intérpretes passivos era raro e quando faziam não deixavam transparecer o papel sexual do intérpete, como ilustra bem a capa de In Your Wildest Dreams (Falcon Studios, 1988) com o fera Kevin Williams segurando dois ursinhos de pelúcia. Neste filme antológico ele atua com Chad Douglas em uma cena de malhação completa. Chad é um instrutor impiedoso e Kevin um aluno aplicado, os dois estão no melhor de suas formas e voracidade.

Intérpretes exclusivamente top, como Chad, considerado por alguns o melhor de todos os tempos foram escasseando e Jeff Stryker, considerado o segundo melhor top, foi se tornando um cão amestrado e cotó do rabo. Esses dois estão para os filmes gay assim como Ron Jeremy e John Holmes estão para os filmes hétero. Seus filmes hoje podem ser vistos e revistos como relíquias, diferente do trabalho de Matt Ramsey (Peter North nos filmes hétero), porque seu desempenho não envelheceu, permanece atual. Ramsey é um intérprete anfíbio, pois gosta de pererecas, tem qualidades suficientes para ser imortalizado na academia do filme pornô. Foi o versátil que sintetizou as tendências de toda sua geração e produziu uma obra extensa, entre elas está The Bigger the Better (Falcon Studios, 1984) dirigido por Matt Sterling, neste filme faz o papel de um professor que é severamente punido pelo aluno superdotado, Rick Donovan.

Swallow (Treasure Media Island, 2004), do visceral Paul Morris, ou Barebacking With Carlos Morales (SX Video, 2005), de Ben Biard, são exemplo de filmes que têm o pau como protagonista mas são uns particulares representantes dessa tendência, nos dois filmes os paus não têm a personalidade marcante de um intérprete, todos os são versáteis, de modo que pau e cu estão no mesmo nível de equivalência. Os top como protagonistas não desapareceram completamente, eles estão em filmes hétero e em filmes gay démodée. Chad Hunt em The Velvet Mafia Part 2 (Falcon, 2006) é exemplar: feio, rude, malvado, superdotado e comilão, traça Roman Heart e Brent Corrigan (Fox Ryder) sem dó. No filme anterior, The Velvet Mafia Part 1, o grandalhão Erik Rhodes, que tem bastante sex appel para ser um super top da atualidade, dá bonito pra o pequeno Brent Corrigan (Fox Ryder) na primeira cena do filme, antológica pela originalidade do desfecho, a formiga comendo o elefante. Esses dois filmes foram dirigidos pelo veterano Chris Steele que montado na superestrutura do estudio fez o maior blockbuster do ano passado com um toque de Martin Scorsese. Mas foram os imprevisíveis movimentos do mercado de filmes pornográficos que determinaram essa mudança de órbita? Se assim fora todo mérito seria dos produtores, quase sempre também diretores, sendo os intérpretes apenas os instrumentos dessa mudança, o agraciado foi o público.

Vendo a mudança sob aspectos mais fisiológicos, no universo masculino o melhor amigo do homem é o pau, mas essa idéia é válida também no mundo masculino gay? Os homens têm o pau como o centro de sua atenção, sua masculinidade irradia daquela protuberância zombeteira para todo o corpo e para o ambiente mas nem sempre o pau corresponde às expectativas dos homens sobre de si mesmos ou sobre seus desejos. O pau parece, na maioria das vezes, realizar muito mais o sonho dos outros do que de nós mesmos, de modo que nem sempre ele pode ser considerado nosso melhor amigo, embora esteja longe de ser considerado inimigo, é o amigo do amigo. No mundo gay quem desponta como novo melhor amigo do homem é o cu, se não o próprio, o cu do outro, e os motivos não são poucos, mas basta um pra findar qualquer discussão: cu não broxa.

7 comentários:

  1. tá ai um título que gostaria de ter escrito, bravo! Bravo!!! passivona-power

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  2. André2:43 PM

    salve salve a ascensão do Cu, que dure por muito e muito mais tempo (_|_)

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  3. que cu!
    mas que é verdade que tem gente que come pelo cu é,
    realmente pode ser um momento paradigmático e que os gays podem estar sinalizando de maneira muito ativa, uo seria passiva? pouco improta... o pensamento é brilhante!

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  4. duilio ferronato11:51 AM

    muito bacana seu blog, fui até o fim.

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  5. adorei seu blog. adoraria conversar com vc ao vivo. amei mesmo! bjão

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  6. Anônimo11:52 AM

    :D --> Você é ótimo,e pronto!

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  7. Você escreve muito bem,mas o oríficio anal só existe para evacuar ou nos proporcionar dor.

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