sábado, 10 de novembro de 2007

Nem crime nem castigo

Nem crime nem castigo
A bunda justiceira



Quantos heróis injustiçados há na literatura, no teatro e no cinema? Zilhões! O que há em comum em todos eles é que se arrombam antes de alcançar a redenção. As fontes de inspiração de Justice (Steve Scarborough, 2006) vêm de todas as narrativas ficcionais e dos tablóides; não daqueles carniceiros, mas dos que lançam uma nuvem de suspeita sobre a moral dos citados, de quem escreve e de quem consome algumas notícias, cujos fatos são lascívia do começo ao fim. A imprensa não narra sexo explícito, narra sexo implícito e inspira roteiristas enfastiados.
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Shane Rollins, que faz o protagonista Toby, é apelidado de Shane The Beautiful com alguma justiça, mas não é dessa justiça que o filme trata. Norteamericano, ele é versátil além da conta: pai de uma criança, possui esposa e faz até filmes bissexuais. Começou a carreira em San Francisco, Califórnia, como dançarino e stripper. Estreou na produtora Raging Stallion com o filme A Porn Star is Born (Chris Ward, 2003). A ascensão foi rápida e em 2004 recebeu o GayVN Awards, na categoria "Melhor Suruba de Três" pelo filme Gay Dreams (Chris Ward, 2003). Fez ensaios fotográficos para várias revistas exibindo uma anatomia afeita à função. Dono do próprio passe, não é modelo exclusivo de nenhuma produtora, fez filmes para várias delas. Pode estar vivendo a melhor fase de sua carreira, mas já manifestou planos de começar a dirigir filmes porque a carreira de ator no pornô gay é curta e parece que dirigir é fácil.
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Não é do tipo que, confiante na beleza física, se prende a ela como valor de interpretação, pelo contrário, Rollins faz uma caracterização convincente do personagem, algumas vezes parece mesmo que não gosta de chupar pau. Branco, cabeça raspada, de cavanhaque, não é malhado, tem corpo e pau medianos, a bunda, entretanto, é acima da média, ele só depila estrategicamente, talvez em função da fotografia, tem cameraman que diz que pentelho no cu dificulta o foco, bobagem. Em Justice ele faz o papel de um cara que se julga igual a outro qualquer, órfão, criado pela avó, costumavam ir à igreja juntos, estudou bastante e quando se viu sozinho, sem família, deixou a cidadezinha onde nasceu e foi a San Francisco em busca de “oportunidades”. O mítico motorista de táxi de Brizola diria que um sujeito com todos esses predicativos só podia mesmo ser boiola. Nem tanto, o acaso teve chances, ainda que mínimas, de tê-lo introduzido na vida gay de São Francisco de uma forma mais amena. Tudo poderia ter sido diferente se ele não fosse confundido com um traficante de drogas, que se evadiu e detido por dois policiais (Tony Mecelli e Robert Van Damme) e na delegacia sofreu averiguações minuciosas e profundas. Sorte ou azar dele? O roteiro não é maniqueísta, prevalece a idéia de que a vida é um eterno perde-e-ganha.

O método de investigação tem a objetividade dos laboratórios científicos. Toby resiste aos policiais, então ele são obrigados a cometer algumas violências antes que ele consinta, docemente, que lhe introduzam picas na boca. Uma averiguação retal também é necessário. Depois de uns 20 minutos de peleja Toby, finalmente, percebe o rigor do método e adota a receita de quem no Brasil anda com a mala na mão: relaxa e goza várias vezes. Policiais são brutos e grossos, nem sempre bonitos, roguem a Nossa Senhora do Ó para que pelo menos sejam tesudos como Van Damme e Mecelli, dois sexe objecte prêt à porter. O caso de Toby é fichinha se comparado às vicissitudes do plano da realidade. Advirto os irredutíveis virgens anais que existem coisas piores do que um ou mais paus no cu. Preservem a vida e lasquem as partes pudendas. Não se leva a sério uma moral sem crédito anatômico. Justiça sempre dói em alguém, por isso deve ser feita à bunda que é anti-impacto, justiça à pau é linchamento. Não foi à toa que o criador guarneceu o cu, um ponto indubitavelmente sensível, no fundo de um vale ladeado por dois amortecedores semiesféricos que serviram de modelo à indústria automobilística para criar os airbags. A bunda agüenta o tranco e o cu é para o prazer.

É prática corriqueira entre os traficantes a introdução voluntária de pacotes contendo drogas nas cavidades íntimas. Também é corriqueira a introdução forçada de objetos pontiagudos no ânus como forma de coação, supostamente desmoralizante que, na intenção de conseguir uma confissão, só causa danos físicos. Os fora-da-lei de elite, da esquerda e da direita, que se pegaram nos anos da Ditadura Militar brasileira podem dar melhor testemunho disso. Muitos filmes foram feitos sobre eles, nenhum pornô gay. Se considerarmos as tintas de Tropa de Elite (José Padilha, 2007) como parâmetro para a realidade, a cena que o Capitão Nascimento ameaça meter um cabo de vassoura no cu de um boy do morro para conseguir uma confissão dá a certeza de que esse tipo de tortura ainda existe e não é praticada apenas pelos representantes do Estado, é disseminada por toda sociedade. Se os gays dão por prazer e os hetero são forçados pelas circunstâncias, realmente falta bunda pra fazer justiça.



Conduzido ao xilindró, Toby é recebido a pau novamente. Reza a tradição que quando chega um prisioneiro novo ele tem de servir sexualmente aos companheiros mais antigos de cela, é um ritual de submissão à lei do local. Homens jovens e confinados é uma situação explosiva da porra; vira uma suruba. Essa tem a participação dos atores Nick Piston, Brad Star, Jordan Vaughn e o protagonista Rollins. Números pares de participantes numa suruba tendem a formar casaizinhos que fazem swing, situação que se pode evitar colocando mais um. Com a superlotação dos presídios brasileiros a suruba aqui seria numericamente maior, talvez não fosse melhor porque Justice reúne atores escolhidos a dedo e à régua: Vaughn (baixinho e torado) e Piston (sexy e enfezado) merecem ser vistos e revistos em slow motion.


Sexualmente abusado pelos tiras e pelos companheiros de cela, Toby também chafurda com o advogado (Ty Hudson), o homem que deveria defendê-lo. Mas entre eles não há forçação de barra, pelo contrário, cria-se uma situação negociada, Toby compactua em troca de um benefício pelo qual não pode pagar nem prescindir. O advogado é um chupão gente-fina se comparado com os tipos que ele encontrou no infortúnio da cela e da delegacia. A lábia do bacharéu explica porque essa seqüência só apresenta sexo oral.

Este filme é recomendado para quem não resiste à sensualidade de homens calejados nos anos, como Ty Hudson, que tem algo de Robert de Niro. Mesmo Shane Rollins, que afirma ter 25 anos, parece ter mais. A platéia que aprecia maduros é vigorosa, resta saber se essa admiração não é escárnio. Outro veterano que aparece na tela, em um papel não-sexual mas que ainda está tinindo, é o diretor, Steve Scarborough, 54 anos, egresso da Falcon Studios, onde foi diretor a partir de 1988 até pouco antes de criar, em 1993, a sua própria produtora, a Hot House, e começar a escrever, produzir, dirigir e até atuar nos próprios filmes. Esse passado na Falcon explica muito do seu estilo previsível. Justice peca por excesso de correção, por não sair da linha. Morno, falta ousadia. A direção se atém a fórmulas consagradas de fazer filme pornô gay, opção apenas medianamente válida e para quem acredita que o gênero se presta apenas para punheta. Não que punheta seja pouco, alguns filmes nem servem para isso, mas repetir tanto a mesma fórmula é como trepar todo dia com a mesma pessoa, esgota o interesse pois já realizaram-se todas as fantasias. Com um parceiro sexual essa situação é contornável, com um diretor de filmes de Pornwood não é a mesma coisa. Ele acomoda-se porque a fórmula velha sempre será nova para as platéias que ingressam no mercado ao completarem 18 anos. Para esses tipos de filme foram inseridas as cenas extras de erros e percalços. Registrados pela câmera muitas vezes essas cenas são mais interessantes do que o próprio filme.

A saga continua e Toby se livra do advogado. Instruído por este, vai ao ambulatório da prisão tentar uma boquinha. Lá ele procura convencer o médico (Kent North, falecido em julho último) a lhe conceder um isolamento onde fique à salvo das sevícias. O médico examina seu corpo latanhado e, mesmo diante das evidências de abuso sexual, nega-lhe o pedido. Isso foi mais uma injustiça. Quem ganha tratamento vip com pouco esforço é outro careca de cavanhaque (Nick Horn, não confundi-lo com Shane, que tem tatuagens). Na maca ele transa com o médico e com o enfermeiro (Carlos Morales), os três engatam um trenzinho da saúde com o médico no meio. Com dois atores passivos da qualidade de Morales e North e um versátil feito Horn, acaba faltando pau para fazer o linchamento. A carência é resolvida pela indústria de plásticos, que comercializa nos Estados Unidos cerca de 50 milhões de dildos por ano. Nessa cena, um deles foi parar no cu de North.

Julgado e condenado a quatro anos de detenção, Toby volta ao xilindró. Aí ele reencontra o traficante com o qual foi confundido no começo do filme (Trevor Knight). É a hora de acertar as contas, alguns diriam que é a vingança da gansa, porque a pica de Shane lembra perfeitamente o pescoço dessa ave. Um guarda voyeur (Mike Roberts), se diverte do lado de fora da cela sem se envolver. Não há o que vingar, os dois fazem um troca-troca apasiguador. Se não houve crime aquela prisão não é exatamente o que se pode chamar de castigo. Essa seqüência tem pouco sentido e a transa é oca como num filme de lésbicas.

Na corte de apelação o herói injustiçado não quer privilégios, quer justiça, e ela se realiza numa suruba de cinco (Marco Paris, Marc Williams, Duke Michaels, and Parker Williams). Marc Williams é um ator negro com uma pica em cinemascope, escreveria uma epopéia para falar de sua grandeza, mas isso não cabe aqui. Os outros atores fazem seu trabalho com disposição, mas cor da pele de Marc Williams sempre desvia o nervo ótico para aquela matéria escura que adensa corpos cavernosos melanófilos.

É sacanagem contar o final do filme? Não neste caso, porque é maçante ver a maneira como filmes feitos em Pornwood não fogem sequer à regra mais elementar, a do happy end. Fazer um filme sobre um herói injustiçado cria expectativa na platéia para saber o destino do protagonista, essa expectativa precisa ser melhor recompensada. Um herói pode surgir da mais vil corja, como os usineiros e os ministros de estado que tiveram suas dignidades surpreendentemente resgatadas pelo Presidente da República. Enquanto a realidade parecer cada vez mais com a ficção e os filmes pornôs permanecerem tão ruins em produzir subjetividade, muita gente pode preferir a diversão proporcionada pelos documentários e pelas narrativas dos tablóides que inspiraram o filme. A situação se agrava em Justice com um diretor que também é produtor que acaba trazendo para o filme questões isentas de inteligência e criatividade.

Pela carinha de feliz que Toby faz no fim do filme imagina-se que em casa vá sentir por um bom tempo, na bunda justiceira, a dor da saudade, mas a platéia pode acabar com dor no ovo por não encontrar em Justice uma cena que mereça uma boa esporrada.



Saiba mais:

Acesse o site da produtora Hot House Entertainment

Acesse o site de Justice

2 comentários:

  1. André4:21 PM

    Pena que Kent North tenha falecido, fiquei curioso em saber a causa depois eu pesquiso, gostei da abordagem de como os filmes pornô estão ficando repetitivos e maçantes como casal que trepa por 20 anos sem inovar e que o mercado precissa de improvisso nas cenas de vez em quando pra deixar a cena mais natural. Mais uma ótima crítica Boris!

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  2. Gabriel2:31 AM

    Por favor, se você souber onde encontro este filme para comprar em algum site, ou qualquer outro lugar me avise! gabriel.zanni@gmail.com
    obrigado

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