domingo, 25 de novembro de 2007

Mutatis mutandis

Mutatis mutandis
A desejada inversão

A dualidade do gênero é uma das idéias mais bizarras que se tem notícia. É estupidez relacionar, obrigatoriamente, papel social de gênero, identidade de gênero e anatomia genital. A diversidade sexual humana, grande e misteriosa como os oceanos, talvez admita a existência de duas pessoas com a mesma identidade de gênero, o improvel é que elas algum dia se encontrem e copulem. Cada indivíduo é único, bem como sua identidade, razão pela qual a palavra homossexualidade é de uma imprecisão flagrante, mas, ainda assim, aplica-se às relações entre indivíduos que compartilham a mesma anatomia genital. A prática de atos sexuais entre estes indivíduos, representa apenas uma fração de todas as práticas possíveis dentro da diversidade sexual humana. Esses atos são o enredo invariável dos filmes pornô gays que, excepcionalmente hoje, aqui terão menos relevância para focar a sexualidade trans.

Antonio Banderas declarou que gostaria de ser mulher por um dia. Desconsiderando o período muito curto da conversão, há de se admitir que esse é um desejo freqüente, que já não assusta ninguém e saiu da esfera íntima para a pública. Na mesma semana da declaração do ator espanhol foi noticiado que uma das atletas mais bem sucedidas da Alemanha vai virar homem, o que não deixa de ser uma boa notícia para quem aprecia o sexo de Zeus Olímpico e lamenta que os homens parecem sempre existir em numero aquém do desejado. Yvonne Buschbaum, 27 anos, anunciou nesta quarta-feira (21/11), em seu site oficial, sua retirada do atletismo para fazer tratamento hormonal para mudança de sexo, como parte do processo de sexualidade trans que ainda prevê uma Cirurgia de Redesignação Sexual. Entre a declaração de Banderas e a de Yvonne há uma distância colossal, mas cada um, a seu modo, acabará conseguindo essa desejada inversão.

Yvonne afirmou que há muito tempo se sente com se estivesse no “corpo errado”. É dessa forma que ela se refere ao seu corpo atlético, capaz de fazer inveja a homens e mulheres. Foi com ele que Yvonne terminou na terceira colocação nos Campeonatos Europeus em 1998 e 2002, foi sexta classificada nos Jogos Olímpicos de Sydney 2000, mesma posição alcançada no mundial em recinto coberto de 2001, em Lisboa, na modalidade salto com vara. Imaginem se ela estivesse com o “corpo certo”, sem dúvida teria se equiparado a Sergei Bubka, o imbatível recordista mundial dessa modalidade do atletismo. Depois do anuncio da decisão resta desejar boa sorte a Yvonne com o novo corpo e gênero. Desejar também que o novo varão alemão se realize nas relações pessoais e, finalmente, não interrompa a carreira desportiva. Embora essa seja uma atividade organizada de acordo com as características sexuais aparentes, a estrutura dos cromossomos é sublevada, não deve estar distante o dia que serão oficialmente aceitas equipes mistas.
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Independente da causa, física ou psicológica, a transexualidade nos humanos é um processo que hoje em dia pode ser encarado com menos medo, trauma e preconceito, talvez por isso mesmo os casos estejam deixando de ser raros. A evolução da medicina tem ajudado as pessoas a encontrar o gênero desejado que, nem sempre, coincide com o qual se nasce. Mais complicado é o caso daqueles indivíduos cuja inadaptidão não é ao gênero sexual, mas à natureza humana. Pessoas que não se acham nem homens nem mulheres. Desejam ser tomates, amebas ou lava vulcânica. Para estes o tratamento é mais complicado.

Mutatis mutandis é o caso de quem precisa fazer tratamento para enquadrar-se ao gênero. Não-transexualidade foi o caso da judoca Edinanci Fernandes da Silva, que por pouco não foi às Olimpíadas de Atlanta, em 1996, por ser anatomicamente e cromossomicamente um rapaz, embora desempenhasse o papel social de uma moça. Para “permanecer” mulher ela teve de se submeter a duas cirurgias: uma para retirar os testículos internos, responsáveis pelo aumento da produção de hormônios masculinos e outra para corrigir uma hipertrofia nos órgãos sexuais, características genéticas que ocorre em muitas mulheres, mas que são inadmissíveis pelo Comitê Olímpico Internacional. A atleta paraibana, mulher macho sim senhor, foi, este ano, campeã Pan-Americana na categoria meio-pesado, no Rio. Vale lembrar que, em português pelo menos, a palavra atleta é um substantivo comum a todos os gêneros.


Anônimos trocam de sexo sem ser noticiados, famosos são manchete de jornal e todos têm de lidar socialmente (família, amigos, trabalho) com a questão da mesma forma. A primeira personalidade pública de sexualidade trans de que se tem notícia foi Jan Morris, escritora inglesa, nascida James Moris. Na sua autobiografia Conundrum: From James to Jan ela faz um relato semelhante ao de Yvonne, a sensação de estar no "corpo errado". Em 1972, aos 46 anos, o respeitável Sr. Morris, doutor honoris causa da Universidade de Gales, Comandante da Ordem do Império Britânico, deixou o lar, os filhos e a esposa para trocar de sexo numa operação feita em Casablanca, Marrocos. Morris é uma escritora com vasta obra publicada em inglês, infelizmente sem nenhum título lançado no Brasil.

Outro caso de personalidade pública de sexualidade trans que vale ser lembrado é o de Walter Carlos, músico extraordinário, compositor, intérprete americano de música eletrônica, professor acadêmico, pesquisador, que no inicio dos anos 70 mudou de sexo, passou a se chamar Wendy Carlos e saiu na Playboy, numa entrevista concedida em 1979. Carlos havia lançado, em 1968, o disco Switched-On Bach, que permaneceu por muitos anos como o álbum de música erudita mais vendido, na marca de um milhão de cópias. Antes de virar mulher ele ainda lançou The Well-Tempered Synthesizer, A Clockwork Orange (trilha sonora do filme de Stanley Kubrick) e Sonic Seasonings. Depois que virou mulher lançou Switched On Brandenburgs, um luxo de álbum duplo, antológico, com uma capa maravilhosa, interpretando os Concertos de Brandenburg, de J.S. Bach, num sintetizador Moog. Se munido com um sintetizador Carlos era maestro, orquestra e coro, portanto ele podia, dali por diante, ser o que bem entendesse, homem, mulher ou bicho. Carlos e Jan comprovam que, pelo menos na arte, senão em qualquer outra atividade, talento é uma questão absolutamente dissociada de gênero sexual.


Um pouco antes desses casos virem a público na mídia, Gore Vidal escreveu a novela Myra Breckinridge, que em 1970 foi adaptada para o cinema pelo diretor Michael Sarne. Myron (Rex Reed) transforma-se em Myra (Raquel Welch) numa operação com um médico maluco diante de uma platéia entusiasta. Depois da operação Myra vai a Hollywood, mas seu lado masculino continua se manifestando esporadicamente como alter ego. A novela (e o filme) é uma comédia de visão limitada por uma ironia que até homens esclarecidos, como Vidal, podem ter sobre a questão da sexualidade trans que, particularmente, não compartilho. Entendo a identidade de gays e lésbicas como duplamente afirmativa, a dos héteros como apositiva, a dos bissexuais como cambaleante, a dos trans como invertida, mas todas voltadas para o mesmo sublime objetivo, o prazer sexual, ao qual todos os outros prazeres se subordinam. Há, pois, de se garantir que todos os indivíduos gozem como e por onde sintam vontade. Que todas as razões conscientes sejam respeitadas.


4 comentários:

  1. André7:22 PM

    Realmente uma pessoa somente pode sentir-se bem consigo mesma depois que consegue se definir no mundo seja como homem, mulher ou bicho(a)!

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  2. aí, ô Boris, Posso me definir como abobrinha durante essa próxima semana?

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  3. Anônimo3:07 AM

    Nossa! Quem escreveu o texto? Muito bom!!

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  4. Boris,
    Realmente o texto é ótimo!

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