quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Pequenos temas, grandes picas e rabo solto

Pequenos temas, grandes picas e rabo solto

Por que filmes pornôs gays agradam tanto?

Curioso este mundo gay de recato e exposição. Nele existem os que se cobrem com sete véus, trancam-se nos armários, escondem seus desejos sexuais de todos, até de si mesmos, enquanto outros, pelo contrário, demonstram-no não apenas para os próximos, mas diante das câmeras com riqueza de detalhes. Claro que entre eles existem os de comportamento intermediário, que não vêm ao caso. Os primeiros não assumem que são gays nem que para tanto tenham de sacrificar a própria felicidade. Os segundos expõe-se diante das câmeras por caraminguás que poderiam ser ganhos de mil outras formas.

Se fosse possível saber qual a mais substancial razão de ser de um filme pornô gay poderíamos compreender esses opostos da conduta sexual de alguns homens, pelo menos daqueles extremistas da exposição pública. Estes que, a não ser por treparem diante das câmeras, não realizam nada comparável aos feitos extraordinários de um herói antigo ou de um super-herói Marvel. Mas por que eles agradam tanto?

A matéria publicada em 10 de janeiro, “Tempestade de tinta”, sobre o filme Ink Storm (Raging Stallion Studios, 2007) trouxe à baila uma questão que merece ser melhor desenvolvida, sem pretender esgotá-la: o que são os filmes pornôs? Especificamente o pornô gay. E de que vale ficar comentando sobre eles aqui?

Filmes pornôs não são como um filme qualquer. O que os diferencia é que eles são feitos de realidade e não de ficção, o contrário da maioria dos filmes ditos "convencionais", baseados na ficção, menos os documentários. Embora a ficção não esteja inteiramente ausente, ela é secundária no filme pornô, que são um tipo particular de documentário, cuja a ação não é representada, pelo menos nas cenas de sexo. Nelas o indivíduo se deixa fotografar copulando de verdade com qualquer pretexto ou sem qualquer pretexto. Embora estes indivíduos sejam intérpretes, suas representações os transformam, personagem e intérprete se confundem. Os intérpretes de outros filmes, pelo contrário, evitam que as representações os transformem, mantendo uma distância segura do personagem. Mesmo assim, o sentido que se dá às seqüências de sexo está menos no indivíduo que pratica a ação do que na ação em si. Engana-se quem vai procurar sentido alhures, foge ao essencial e periga embrenhar-se numa especulação tautológica.

Filmes pornôs não precisam contar uma história para atingirem o objetivo de proporcionar prazer à platéia. Tudo que eles precisam é de pequenos temas, grandes picas. Não precisam conter literatura, embora possam, eventualmente, conter alguma, pois não faltam roteiristas querendo escrever um pouco. Os planos são curtos, eles são simples e divertidos como uma ciranda, um carrossel girando, o roteiro é mínimo, dá voltas, passa sempre pelo mesmo lugar. Muitos deles têm trilha sonora de parque de diversões e os cavalinhos são cavalões que endurecem para dar afeto e prazer. Um dia o limite desse prazer foram os ovos, hoje não é mais.

Filmes pornôs recusam ser arte para não fazer parte do campo mais ingrato da produção cultural. Os pornófilos já são bastante solitários e até anti-sociais para ainda serem artistas. Estes filmes são feitos por hedonistas, para hedonistas; não são acintosos às ciências, essa tarefa ao cinema convencional exerce com mais eficiência; fustigam a moral e a religião de uma forma muito mais impactante do que a filosofia e as artes, sem meias-palavras, sem sentido dúbio, agindo nos intestinos do mesmo sistema econômico que é a superestrutura capitalista.

Filmes pornôs podem ser encarados como negócio, é preferível assim do que como arte. Como negócio evita correr riscos, os filmes resultantes podem ser fracos e tediosos em questões de criatividade, característica que compartilham com o próprio sexo, cujas possibilidades são finitas e pouco numerosas. Se em sexo o que vale é a combinação das possibilidades, os filmes pornôs raramente ousam alterar essas combinações.

Como negócio, têm de ser econômicos, a relação custo-benefício deve ser alta para compensar os riscos. Esta relação tornou-se ainda mais vantajosa com as mídias digitais, o pornô invadiu a internet de uma forma impressionante. Como negócio, precisam muito mais de homens com tino comercial do que de homens com verve artística. Por suas características, o merchandising nesses filmes tem características menos ostensivas do que o cinema convencional e a TV: os filmes pornôs promovem-se, promovem alguns etereótipos masculinos, comportamento e uns poucos produtos. Eles ainda são off demais para promover grandes marcas.

Mesmo considerando como um negócio, não existe estatística inteiramente confiável sobre a quantidade de dinheiro que o setor movimenta. Ambas as partes, quem produz e quem consume, preferem não declarar sobre os valores movimentados. Mais do que em qualquer outra área de produção, há uma fatia muito significativa de informalidade e de ilegalidade. Quem está fora dessa fatia queixa-se que a atividade muitas vezes acabe em fiasco financeiro. Pelo pouco que resta de confiável nas estatísticas, deduz-se que há expansão da produção e do consumo, o que nem sempre corresponde a um incremento da qualidade. Essa expansão ocorreu principalmente com as novas mídias eletrônicas. Foi justamente para dividir esse quilhão que os roteiristas da Writers Guild of America, o sindicato dos roteiristas americanos, entrou em greve em novembro de 2007. Essa greve não afeta os filmes pornôs porque eles não são meio de vida para roteiristas e também porque filmes pornôs nunca foram exibidos nas grandes cadeias de cinema nem de TV.

Sem considerar a qualidade, essas duas tendências, produção e do consumo, estão ausentes nas produções brasileiras. Talvez o Brasil não tenha mesmo de produzir seus pornôs gays se estes não podem ter qualidade que os torne competitivos. O Brasil pode ser apenas um país consumidor e concentrar os esforços produtivos em outras atividades. São exemplares os casos de Pernambuco e Taiwan, embora a putaria seja uma atividade forte das economias locais, a província rebelde brasileira é a maior produtora mundial de pitomba e a província rebelde chinesa é a maior produtora mundial de telas de LCD. Como essas províncias rebeldes o Brasil precisa encontrar sua vocação econômica no cenário mundial. Quem sabe um dia consolide seu papel de vir a ser um importante produtor de fontes alternativas de energia? A exploração de bioenergia produzida por fricção de pica daria uma luz a esse país cujo apagão de idéias supera qualquer outro.

À revelia do boom da produção e do consumo do pornô gay estrangeiro, o Brasil continua firme no propósito de produzir paleopornôs que afugentam a platéia. Muitas produtoras estrangeiras vêm filmar aqui, aproveitando-se da abundância de homens, da natureza mãe gentil, de um setor mal organizado, semi-amador, imiscuído na prostituição; desembarcam com vistos de turistas e objetivos profissionais. O material para edição de vários filmes é captado em pouco tempo e depois é editado e distribuído a partir da Europa e dos Estados Unidos, onde residem os produtores que ficam com os maiores lucros dessa ardilosa prática transnacional. A exportação dos atores brasileiros ou da imagem deles e do seu habitat é um tipo de biopirataria cujos lucros não são revertidos para a fonte onde se originou, por esse motivo precisa ser regulamentada.

Na era da globalização mais promíscua que já houve sobre a terra, surgiu o pornô transnacional. Mas este não pode ser responsabilizado como sendo a causa das mazelas do pornô tupiniquim, pelo contrário, ele poderia ser um grande negócio como parece ter sido para os países do leste europeu. Diante dos fatos constata-se que o Brasil deixa escapar a oportunidade de tirar proveito de um forte ciclo de crescimento da economia mundial, cuja expansão acima de 4% entre 2003 e 2007 favoreceu até mesmo a foda filmada.

O pornô gay brasileiro tem êxito comparável ao cinema convencional e não ao da TV tupiniquins. A razão disso parece estar na enganadora inesgotável criatividade artística do brasileiro, manifesta em tantos campos, mas pífia em mostrar resultados convincentes no cinema, seja no alternativo e autoral, seja no cinemão blockbuster. Exceções confirmam a regra, os casos bem sucedidos não deixam sucessores. Neste negócio o cinema convencional brasileiro, incapaz de disputar público com o produto estrangeiro, se vale de concessões de reservas de mercado e outros incentivos oficiais para sustentar-se. Poderia o pornô pretender os mesmos incentivos concedidos ao cinema convencional?

Matérias sobre os filmes pornôs gays não cabem nos cadernos de cultura e diversões dos jornais, cheios de tanta subjetividade, onde até horóscopo e coluna social são aceitos. Tais matérias seriam muito mais apropriadas para os cadernos de política, negócios e esportes, muito mais objetivos, sustentados por argumentos reais, com maior racionalidade e precisão. Como é improvável que um dia esses cadernos acolham matérias sobre filmes pornôs, elas só podem ser veiculadas em meios próprios, como este blog. Aqui não se faz crítica meritória porque, quase invariavelmente, esse tipo de crítica tem o “rabo preso”. Aqui se faz comentários sobre os filmes pornôs gays e todas as atividades relativas a eles, conforme o enunciado, preservando o rabo solto.

Finalmente, respondendo a primeira das perguntas dessa matéria, por que esses homens fazendo sexo agradam tanto? Não é apenas porque o dano que resulta quando eles se colocam numa posição tão indefensável para outros machos é insignificante diante do prazer proporcionado. Nem é porque esses filmes são os que permitem maior interação com a platéia. Nem é porque o outro é do cu para fora e o eu é do cu para dentro e, na hora do coito anal, esses limites são destruídos. Em português uma das palavras que se usa para designar este ato é o verbo “dar”, tão necessário nessa época de individualismo exacerbado. Dar a bunda faz bem, descongestiona, relaxa, é socialmente um ato tão altruísta. Nem é porque ver (às vezes) é tão bom quanto fazer. Tudo isso já se sabia, mas outros motivos são menos explícitos do que o sexo nesses filmes: na ação que eles exibem há uma supressão de tempo, de lugar, de sociedade, de fobias, de psicanálise, de ideologia, de militância e tantas outras bobagens que nada mais fizeram do que tornar esse mundo tão medonho.

Por isso os filmes pornô gays agradam tanto.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Tempestade de tinta

Tempestade de tinta

Bizarrias medianas


Prossegue a greve iniciada em novembro pelo Writers Guild of America, o sindicato dos roteiristas americanos, movimento que já causou vários contratempos na poderosa indústria do entretenimento, entre eles o cancelamento da 65ª cerimônia de entrega do Globo de Ouro 2007. Tal greve parece não afetar em nada as produções dos pornôs gays porque esse é o tipo de filme em que os roteiristas têm pouco ou nada que fazer. Filmes pornôs são feitos de realidade e não de ficção, é um tipo particular de documentário, a ação não é representada, é gente que fode de verdade sob qualquer pretexto ou sem qualquer pretexto porque o sentido está no próprio ato e não fora dele. Filme pornô não pretende conter literatura, não é arte, não é acintoso às ciências e fustiga a moral e a religião. Filmes pornôs não precisam contar uma história para atingirem seu objetivo, eles são divertidos como carrossel girando, muitos deles têm trilha sonora de parque de diversões e os cavalinhos são cavalões.

No mundo dos filmes pornôs gays em 2007 os diretores veteranos esbanjaram criatividade e os atores exibiram vigor incontestável. Chris Ward, Kristen Bjorn, Michael Lucas, John Rutherford, Steven Scarborough, Chris Steele e Vlado Iresch são exemplos de diretores que não deixaram a peteca emplumada cair, a maioria deles também trabalha como produtores, posição que os deixa senhores absolutos no controle da qualidade do produto, em sintonia com as tendências do consumidor. Matt Cole, Rafael Alencar, Dean Monroe e Brad Patton são atores que contradizem a idéia de que o mercado está sempre pedindo novos talentos, pelo contrário, o mercado não quer perder seus velhos e verdadeiros talentos e, se possível, que sejam atuando ao lado de novatos e (quase sempre) novinhos.



Ink Storm não é obra de veteranos, fato que comprova a vitalidade do gênero que continua lançando talentos e atingindo marcas cada vez maiores de vendas. Essas duas tendências, qualidade e expansão, infelizmente estão ausentes nas produções brasileiras. À revelia do boom estrangeiro, o Brasil continua firme no propósito de produzir paleopornôs, embora muitas produtoras estrangeiras vêm filmar aqui. Aproveitando-se da abundância de nossa natureza, de um setor mal organizado e semi-amador, produtores estrangeiros chegam aqui com visto de turistas e objetivos profissionais. O material para edição de vários filmes é captado em menos de um mês e depois é distribuído a partir da Europa e dos Estados Unidos. Na era da globalização mais promíscua, o pornô transnacional não é a causa das mazelas do pornô tupiniquim, apenas constata-se que o Brasil perde a oportunidade de tirar proveito da conjuntura econômica internacional, favorável até mesmo nesse segmento.

A transnacionalidade pornô se detecta no elenco Ink Storm, que apresenta o estreante ator alemão Logan McCree, o húngaro Tamas Eszterhazy e o nipo-americano Cory Koons. Esse é primeiro filme dirigido por Jake Deckard, estreante que, mesmo como ator, não pode ser considerado um veterano. Deckard e McCree contracenam e na foda deles testemunha-se duas auspiciosas estréias. Deckard, na direção, tem domínio das técnicas de captação e edição de som e imagem faz os atores darem o melhor de si. Já McCree talvez seja o homem mais delicioso da recente safra de filmes.


Quem conhece o estilo Raging Stallion já sabe o que vai encontrar em Ink Storm: nada de corpos olímpicos, imberbes, lânguidos, sexo fraternal e passeio no parque. Os filmes dessa produtora apresentam a mais perfeita diversão pra quem aprecia homens pra lá de machos, grandes, rudes, peludos, au naturel. É o estúdio que mais exala testosterona. Nesses filmes dar o cu parece ser uma prova suprema da masculinidade, o clima pesado, a indumentária, as pegadas fortes, tatuagens e piercings são complementos, comer cu não é menos másculo, situação que proporciona um equilíbrio sincopado com chupadas recíprocas e flip-fuck.

Deckard, cujo nome verdadeiro é Zorax, King of the Mole People (seu currículo inclui o trabalho de massagista, formado pelo Swedish Institute de Nova York, atuando no bairro de Castro, em San Francisco, Califórnia), é um diretor que trabalhou entre 2005 e 2007 como ator em dezoito filmes das produtoras Raging Stallion, Titan Media, Unzipped, Channel 1/Rascal e Dragon Media. Seguiu tanto a cartilha da Raging Stallion para realizar um filme no melhor estilo macho man que acabou sendo declarado, em 2007, como o Homem do Ano pelo presidente do estúdio, Chris Ward. Sua proficiência está na cama e na câmera, tanto que também foi indicado como Performer of the Year 2007 pelo GayVN Awards. O bigode que se prolonga para baixo empresta-lhe um aspecto de morsa muito mais do que de uma toupeira, é inteiramente dispensável à beleza tão nórdica deste "King".


Logan McCree, com sua pele lindamente tatuada, é uma obra de arte da cabeça aos pés, um homem que jamais deveria se vestir. Suas tatuagens poderiam estar em todos os álbuns de tatuadores como exemplo de composição. A primeira cena de Logan é com Steve Cruz quando este visita o ateliê como um cliente que quer fazer uma tatuagem. A pretexto de mostrar a qualidade do trabalho, os dois vão para os fundos da loja, local perfeito para uma boa trepada. Logan tem um anjo tatuado no peito e o desenho se prolonga até o pau formando arabescos, orgânicos e simétricos como um tapete oriental. Se uma pica branca já é tentadora, uma pica tatuada é um acepipe para um cu faminto. Os dois se divertem com muita cusparada e Logan fode Cruz com a violência de um brucutu e a ternura de uma ama de leite.

A seqüência seguinte é contraindicada para os mais sensíveis, pois mostra Montaz Morgan, com visual leather, tendo o pau tatuado por Jamie. Quando o trabalho termina Morgan bate uma punheta e goza gemendo de dor e prazer como um bicho no abate.

Tamas Eszterhazy e Ricky Sinz são os dois tatuados que fazem a terceira seqüência, num bar. Sinz é o atendente descamisado e com o peito escrito boss, em tipografia gótica, faz o ativo dominador. Eszterhazy chupa e dá no meio do salão, Nossa Senhora do Ó evitou uma suruba quando operou o milagre de não entrar no bar nenhum empata-foda neste momento sublime de intimidade semi-pública.

A quarta seqüência é ridiculamente vampiresca, com Jake Deckard e Logan fazendo um troca-troca justo e honesto. Logan, com duas éfiges animais tatuados em cada polpa da bunda, faz aqui seu papel de passivo para o diretor, que retribui com o mesmo toco, numa camaradagem exemplar para nesses tempos individualismo predatório.

A seqüência final é novamente em um ateliê de tatuagem com o maravilhoso Cory Koons e Tober Brandt. Os filmes de Koons comprovam o que todos sabem sobre o cu dos orientais e a terra do sol nascente. O grande Brandt consome a rosca do samurai com voracidade e determinação, cada estocada é um grunhido e depois do gozo há um silêncio sepulcral, o orgasmo esgota o homem.

Ink Storm é um filme para o público que gosta de um sexo temperado com fetiches e bizarrias medianas. Agrada porque nele os homens transam como se estivessem num ringue de vale-tudo, a platéia se envolve, mas se diverte sem se machucar.

Trailer de Ink Storm:

video

Saiba mais:
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Jake Deckard Bodyworks
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Acesse o site da produtora Raging Stallion Studios