sábado, 26 de julho de 2008

O contador de histórias

O contador de histórias
Jean-Daniel Cadinot (1944-2008)

Algumas pessoas lamentaram enquanto outras nem tomaram conhecimento da morte de Jean Daniel-Cadinot, ocorrida no último 23 de abril. Diretor francês que, por vezes, usou os pseudônimos de Tony Darcq e Tony Dark, em 28 anos de carreira lançou 79 títulos, sendo 9 coletâneas e 70 filmes novos. Ele dirigiu, produziu, fotografou, escreveu durante quase três décadas adaptando-se às circunstâncias de cada uma e mantendo patente a marca de sua criatividade pessoal em cada filme.
O primeiro filme dirigido por Cadinot chama-se Tendres Adolescents (French Art, 1980), tem apenas 30 minutos e a ação se passa no campo. Tecnicamente é um filme irreparável, com apenas dois atores, Ange Dominique e Jean-Paul Deval, o filme tem uma única seqüência que inicia no celeiro e termina no banho. Cadinot não foi um enfant ter
rible, esse tipo não consegue viver muito, mas soube retratá-los em filmes como Les Minets Sauvages (1984), cuja ação se passa em um reformatório para menores; Le Désir en Ballade (1989), no qual o irmão mais velho abusa seguidamente do irmão mais novo; Squat (1999), sobre um artista plástico, sem-teto, com muitas conquistas sexuais e meios pouco lícitos de ganhar dinheiro.

Cadinot notabilizou-se como uma espécie de Sherazade do pornô gay, alguém que se eterniza como contador d
e histórias. A expressão que ele encontrou para contá-las não foi literária, foi cinematográfica com cenas de sexo ficcional em vez de cenas de sexo friccional. A semelhança com a heroína das Mil e Uma Noites não é à toa, durante sua carreira ele fez vários filmes no norte da África, como Harem (1984), ganhador do prêmio de melhor filme da Gay Producers Association of America, Chaleurs (1987), um filme sobre europeus perdidos no deserto e pastores do deserto perdidos na Europa, e a recente série Nomades (2005-2007) de cinco filmes. Mesmo os filmes que rodou na Europa quase sempre traziam personagens e atores muçulmanos, como o príncipe das arábias de Garçons d'Etage (1995). Atravessar o Mediterrâneo e filmar pornôs gays em países como Marrocos e Tunísia foi um risco que ninguém ouse repetir nesses tempos em que o fundamentalismo religioso tem provocado tantas mortes, inclusive de cineastas.
Ele não era econômico no som nem nas imagens, também não era excessivo, sabia dosar as cenas de sexo e as cenas não-sexuais, de modo que o sexo não fosse acessório, como acontece no cinema convencional; esse equilíbrio é indispensável para que o prazer da imagem seja tão bom quanto o prazer da realidade. A complementaridade, oposição, superposição, suspensão ou paralelismo das ações são são formas de enriquecer da narração, nos seus filmes enquanto dois ou mais transam outros fazem tarefas domésticas, a vida segue, um telefonema interrompe uma transa que é retomada depois, alguém espera, passarinhos cantam, de modo que o sexo se insere na vida de uma forma indistinguível e não como algo excepcional. Ambientes e personagens são de uma realidade palpável, demasiado humanos. O diretor utiliza-se de muitos ambientes, da montanha ao deserto, à praia, ao campo e à cidade como suporte para o sexo e para a vida ordinária. Cadinot não os coloca fazendo sexo em locais “especializados”, o sexo é feito em qualquer lugar.

Os padrões de cultura e de convívio entre os personagens são igualmente diversos, podem ser até antagônicas; existem conflitos, mas eles não são maiores nem mais importantes que o prazer, embora alguém possa terminar magoado, como Nicolas Taïeb, o apaixonado pastor de ovelhas do deserto, em Chaleurs (1987). Mais sorte teve o personagem do adolescente intelectual de
Classe de Neige (1985), ele não quer saber de sexo porque prefere os livros, é um estranho numa turma onde todos transam a toda hora, no final ele não resiste e boqueteia o instrutor da escola que esqui. Interessante notar como o personagem do intelectual não se interessa pelos adolescentes da mesma idade dele, e sim pelo instrutor, que é mais velho, mais experiente, mais lido, e aproveita-se do fato dele estar dormindo para boliná-lo. Cadinot criou um personagem, menor de idade, que assedia um indefeso maior de idade.
Além de artista, humanista e técnico, Cadinot também foi um empreendedor. Organizou seu estúdio fotográfico, o JDC Studio, e as produtoras Videomo e French Art, quando ainda não existiam produtoras de filmes pornôs gays na França. Em seguida associou-se com outras como a All Words, Centaur, YMCA, Kristen Bjorn e Vivid na Videovision Europe, empresa que até hoje distribui e representa os filmes de Cadinot. Para a distribuição de seus filmes online foi criada a Cadinot.TV, co-produtora dos seus últimos filmes. Na falta de pessoal para suprir as necessidades das produções é comum encontrar na ficha técnica dos seus filmes outros membros da família Cadinot, o que leva a crer que seja uma "empresa familiar". Marie-France Cadinot é a diretora de produção de Les Minets Sauvages e de Le Jeu de Pistes (1984). Jean-Philippe Cadinot é assistente de cameraman em Les Minets Sauvages (1984). Nicolas Cadinot é assistente de direção em Les Minets Sauvages, assistente de cameramen em Le Jeu de Pistes e cameramen em Deuxième Sous-sol (1987). Algumas fontes afirmam que a senhora que aparece na última cena de Escalier de Service (1987), fazendo os dois casais fugirem em disparada, é a própria mãe do diretor, Jeanne Cadinot. Fica a dúvida porque o nome dela não é creditado no filme. Em Deuxième Sous-sol (1987) seu nome é creditado pela engraçada cena da senhora e seu cachorro em um táxi dirigido por Sydney Mckenna.

Pressbook
(1996) foi o filme que lançou Michael Lucas (como Ramzes Kairoff) no estrelato. É um filme sobre o mundo da moda, também foi um filme que influenciou a carreira, o estilo e o tema de Lucas nos Estados Unidos.
Com Cadinot ele fez, no mesmo ano, Désirs Volés. Double en Jeu (2000) foi um grande sucesso do seu estúdio e faz parte da trilogia que inclui SOS e Safari City (1999). Conta no elenco com dois supercacetudos: o versátil Antoine Mallet e o passivo David Mckenna que, lamentavelmente só fez esse filme com Cadinot. Não deixa de ser um filme sobre viagem pois seus personagens não param de se mover na caça sexual.
Embora tenha seguidores, permanece como um diretor sem equivalente na atualidade, que morreu sem deixar nenhuma autobiografia e sem ter sido biografado por ninguém. Embora seus dados possam ser facilmente acessados, ainda não houve quem recolhesse, organizasse e interpretasse a vida e obra desse homem de origem humilde, católico que perdeu a fé tornando-se anticlerical. Em Scouts (1981) há a cena memorável de um padre recebendo sexo oral de dois garotos embaixo da batina. Em Garçons de Rêves (1981) há a cena do padre que se masturba no confessionário ouvindo as histórias de um fiel arrependido dos seus pecados carnais. Na juventude Cadinot precisou fazer bico para se manter, por volta dos 35 anos deu inicio a uma carreira que o transformou no maior diretor do pornô gay francês. O homem se revela na obra, filmes como Sacré Collège (1983), estão cheios de reminiscências autobiográficas, retratam um universo próprio, uma utopia que não se cumpriu e o mundo que surgia na França pós-maio de 68.

Seu
s roteiros não criam apenas um “clima” que induz ao sexo entre personagens sem dimensão dramática. Também não são uma mera colagem de seqüências desconexas nem mesmo em Duos de Choc (2008), seu último filme, cujas unidades estão, propositadamente, em cada uma das seis seqüências, apropriadas para distribuição online, semelhantes aos seus primeiros filmes curtos. Reunidas num único DVD, tornam-se um artigo também apropriado para venda nas lojas, Cadinot não poderia ser menos empreendedor, explorando todas as possibilidades de vendas. Seus argumentos poderiam resultar num filme convencional, mas Cadinot acrescenta o hedonismo de jovens aventureiros e compõe uma narrativa pessoal sobre seu tempo. Ele é influenciado pelos fatos narrados pela imprensa e também são percebidas influências literárias de clássicos franceses como Arthur Rimbaud, Andre Gide e Gean Genet, a quem ele dedicou um álbum de fotografia intitulado Les Anges Pervers, em 1975, antes de iniciar a carreira no cinema.
A comparação dele com a geração imediatamente anterior de diretores franceses que fizeram a Nouvelle Vague é inevitável, Cadinot foi aquele que, no pornô gay, mais encarnou a politique des auteurs preconizada pelo movimento. Ele tinha consciência da distinção autoral dos seus filmes e que ela lhes conferia valores de crítica e de mercado os quais durante a carreira ele tratou de preservar. Cadinot não é um diretor intuitivo, pelo contrário, tinha completa noção de seu papel na sociedade. Ainda quando criança queria ser pintor e estudou arte na École des Arts et Métiers. Na adolescência estudou fotografia na Ecole National de Photo. Essa formação permitiu que no cinema se tornasse um técnico competente e um artista que atento aos conceitos. Como tal procurou formar equipes experientes e duradouras parcerias, como com a compositora Myriam Zadeck, autora da música de muitos de seus filmes, ganhadora do prêmio Best Original Music do AVN/Adult Video News Awards por Le Désir en Ballade (1989). Diretores e equipe com esse tipo de formação não são raros no pornô, Jim Mitchell, por exemplo, produtor e diretor de Atrás da Porta Verde (1972) estudou cinema e era declaradamente fã de Jean-Luc Godard.
Já fotógrafo profissional e bem sucedido, não se deu por satisfeito com a unidade do fotograma e optou pela multiplicidade da fotografia seqüenciada. Não foi um pioneiro do início dos anos de 1970, como Wakefield Poole, Peter De Rome e Jack Deveau, numa perspectiva histórica simplificada, eles podem parecer que pertencem à mesma geração. Existem diferenças: esses diretores pioneiros foram aqueles que conheceram as produções eróticas da época, acreditaram que podiam aperfeiçoá-las e o fizeram. Cadinot é tributário de todos eles, de De Rome pelos modelos negros, de Deveau pelos roteiros elaborados, a influência de Poole aparece em dois filmes: Garçons de Plage (1982) no qual a ação na praia não foi tanto uma versão para Boys in the Sand (Poole, 1971) quanto Le Garçon Près de la Piscine (1986), no qual Cadinot faz sua versão da sensacional história das pastilhas efervescentes que são jogadas na água e viram homens.

Cadinot já herdou uma tradição de filmes pornôs feitos nos Estados Unidos na década anterior, seus filmes só estrearam a partir de 1980 e já não ti
nham nas salas de cinema o seu público-alvo, já que elas começavam a fechar. Naquela época o aparelho de vídeo doméstico começou a se popularizar e Cadinot, que começou filmando em película 16 mm, logo passou a captar em vídeo, que também é o produto final. Ao produzir para o formato VHS ele foi um dos primeiros a enfrentar a pirataria das cópias não-autorizadas.

Os filmes pornôs são naturalistas porque eles são obra de ficção com representação documental, fenômeno semelhante acontece na dança. Cadinot procurou equilibrar o elemento romanesco com o naturalismo do ato sexual, em filmes como Age Tendre et Sexes Droits (1983), uma paródia de Flashdance, dirigido por Adrian Lyne e lançado no mesmo ano, um filme didático para quem estuda o audiovisual e não cultua preconceitos. Seus filmes falam sobre os mais diversos assuntos tanto que houve quem o criticasse por julgá-los desviantes do pornô puro. É o diretor do sexo não-consentido, inter-racial e inter-social. Ele perpetuou um estilo pouco comum no pornô gay e que não foi bem aceito pelo cinema convencional. Entretanto sua perspicácia foi tanta que muitos de seus admiradores defendem para ele um local privilegiado na calçada da fama do pornô.
A qualidade dos filmes de Cadinot ultrapassa as questões técnicas de viabilizá-los e a capacidade de ser inovador e conservador, conforme os interesses do produtor. Alcançar tal desempenho numa área que sofre as pressões do consumo e da moral não é possível sem obstinação, talento e ousadia. Foi o trabalho de Cadinot que evitou a hegemonia do pornô gay americano no mundo e estimulou os realizadores a produzirem em lugares remotos, como Kristen Bjorn no Brasil, fazendo surgir o pornô gay em países onde ele não existia.
Cosmopolita, Cadinot selecionava os mais variados tipos para criar o elenco mais multiétnico possível. Os atores interpretam a si mesmos, os nomes deles coincidem com os dos personagens, o desempenho deles não é obtido à custa de métodos de interpretação teatrais e sim pelo voluntarismo e a tipagem, fórmulas que Sergei Eisenstein demonstrou ser vantajosa no cinema quando se trabalha com atores amadores. Na compleição física os atores são mais exóticos que bonitos, seus corpos são esbeltos, não olímpicos, exceções existem, como os bombados Pedro Koba e Djaï Kamara. Alguns, como Nicolas Taïeb e Sydney Mckenna, com quem Cadinot fez 14 filmes, se encaixam perfeitamente no conceito regional de cafuçu. Mckenna foi um ator cadinotiano assim como Marcello Mastroianni foi um ator felliniano. Apareceu pela primeira vez em Les Hommes Préfèrent les Hommes (1981), embora seu nome não esteja creditado, possivelmente porque ele só fez figuração. Seu segundo filme, o primeiro oficial com Cadinot, foi Garçons de Rêves (1981), no qual fez o maravilhoso papel do enfermeiro que coloca o termômetro no cu dos doentes. Ainda fez mais 12 filmes, no seu último, Parfums Erotiques (2007), já avançado na idade, fez o papel de um comissário de polícia que come dois jovens turistas franceses na delegacia de algum país do norte da África, uma boa suruba com quatro participantes, o quarto deles é um tarado encarcerado.

Na escolha dos atores não há um padrão, embora a maioria dos papéis sexuais seja entregue a atores que parecem nunca desmamar, como Edwin Van Gastel, o irmão solidário de Kasimir Linder em Chaleurs (1987) e Jean-François Chambon, o irmão sodomizado cuja caracterização de óculos faz ele parecer ainda mais frágil e jovem em Le Désir en Ballade (1989), Lucien Lebrun, o provinciano, e David Bauman, o citadino, em Gamins de Paris (1992) são dois que parecem não ter chegado à maioridade. As relações inter-raciais não são
criação dele nem estão nos filmes como um fetichismo racial, elas possuem significado diferente dos filmes americanos onde até os anos 60 havia segregação racial. Em Cadinot as relações inter-raciais correspondem a uma amostragem aleatória da população de um país que por muito tempo atraiu imigrantes do mundo todo e de suas colônias na Ásia, África, América e preserva os ideais de igualdade, fraternidade e liberdade. Desde Stop (1980), seu segundo filme, um road movie pornô gay, o tema viagem tornou-se recorrente na obra de Cadinot. As pessoas estão sempre indo de um lugar a outro, nesse aspecto identifica-se suas posições libertárias, a defesa de uma Europa aberta e tolerante, que faz falta na França de Sarkozy et caterva. Seus personagens só interrompem a viagem para transar e muitas vezes transam dentro dos automóveis, em hotéis, na beira da estrada, na garagem. Entre 2005 e 2007 ele fez uma série de filmes dedicada aos viajantes – Nomades, Plaisirs d'Orient (Nomades II), Portes du Désir (Nomades III), Princes Pervers (Nomades IV), Parfums Érotiques (Nomades V) e Trésors Secrets (Nomades VI).

De uns tempos para cá seus fãs mais atentos não reconhecem nos roteiros dos últimos lançamentos o mesmo diretor que fez os filmes do passado, embora eles não reclamem daquilo que, a meu ver, é a maior deficiência dos seus filmes, as aparas que ficam na edição. Tem fundamento dizer que ele deixou de polemizar com a igreja e o sacerdócio. Percebe-se que os roteiros foram simplificados para haver mais cenas de sexo, o que pode descaracterizar o trabalho autoral de quem notabilizou-se como um contador de histórias. Cadinot passou a repetir fórmulas que deram certo, o que é um cansativo para o fã mais antigo mas não para os novos, que terão as imagens desbotadas e tecnicamente precários dos anos 80 motivos para lamentar. Passou a recorrer dos clichês como sexo na oficina mecânica, em casas abandonadas, na prisão, uso de indumentária nas cenas de sexo, a nudez completa em Cadinot continuou rara.
A French Art começou a relançar os filmes que estavam fora de catálogo ao mesmo tempo que lançava os novos títulos, o que permitiu comparar a produção antiga e a nova. Entre 1991 e 2005 saiu The Best 1, 2, 3, 4, 5 e 6. Entre 2001 e 2007 foi a vez de Cadinot Classics 1, 2 e 3. Praticamente todos os filmes do mestre francês já estavam disponíveis pouco antes do seu desaparecimento. Para a platéia brasileira há a dificuldade de se encontrar cópias com legendas em português. Cadinot poderia ter feito filmes para o cinema convencional e cair nas graças da crítica dos cahiers, mas ele rejeitou esse destino insosso e realizou sua obra adocicando o hardcore.

Saiba mais:

Site oficial de Jean-Daniel Cadinot

Jean-Daniel Cadinot no The Internet Movie Database

Jean-Daniel Cadinot no GLBTQ


sábado, 5 de julho de 2008

Abusus non tollit usum

Abusus non tollit usum
Fiofó fistado fica uma flor

Definitivamente os filmes da categoria Fetiche saíram do restrito círculo daqueles indivíduos que não tem interesse apenas na cópula, os paráfilos, para uma platéia mais ampla de aficcionados. Essa é a categoria que reúne as práticas sexuais consideradas incomuns, extremas, radicais e, por que não também dizer, controversas, porque nelas se tira prazer de onde menos se espera, inclusive da dor. Ao pé da letra fetiche significa feitiço. No sexo equivale dizer que o desejo pelo objeto ou ser ultrapassou o limite do comum e virou uma devoção. Sobre a palavra e sua significação muito já foi escrito, há muitas hipóteses, algumas sínteses e, no mundo do consumo, tornou-se gênero de classificação para filmes pornôs. Um gênero bastante vasto já que qualquer prática que não seja a penetração do pênis nas cavidades oral e anal pode ser considerada fetiche. De todas as práticas fetichistas o fisting (de fist, punho em inglês) é o de mais alto impacto visual e o mais táctil, daí o seu múltiplo encanto sensível para quem vê os filmes e para quem pratica o ato. Fora das telas constata-se que a prática tem ganho adeptos, o que favorece a produção e o consumo dos filmes, criando um ciclo de estímulo e resposta que não deixa de ser didático. Comprova a existência desse ciclo a recente safra de filmes, numerosa e de qualidade, e a popularização do fisting. Se os filmes não forem suficientemente instrutivos se encontram inúmeras páginas da internet sobre o assunto que oferecem até tutorial ilustrado.
O fisting foi retratado já na Renascença por Michelangelo Buonarroti (1475-1564) para O Juízo Final da Capela Sistina (1508 – 1512), uma punição (ou recompensa) aos sodomitas. A imagem pode ser vista na poção média inferior direita da obra. Durante muito tempo a aparição de fisting nos filmes pornôs produzidos nos Estados Unidos era inaceitável, embora filmes convencionais como Parceiros da Noite (Cruising, 1980), de William Friedkin, e Calígula (Caligula, 1979), de Tinto Brass e Bob Guccione, fizessem referencias não-explícitas à prática. Nos filmes pornôs também era assim, mas em algum momento da pornô história, com o surgimento de grandes rabos e um vírus inoportuno, os maiores paus do mundo se tornaram pequenos e infectantes. A seqüência de fistfuck em Spring Break (Falcon Studios, 1988) ilustra exemplarmente esta situação-limite: mesmo que se juntassem dois paus (Chad Douglas e Cole Carpenter) e vários dildos não se esgotava a capacidade de dilatação do cu de certos astros (Cory Monroe e Chris Burns).

Mesmo toda prevenção não excluía
a possibilidade de contágio. Como a castidade não é uma opção viável, adveio de outro membro, a mão, o Super-Pênis não-infectante. Ficaram assim satisfeitas essas duas questões que, naquele momento, pareciam sem solução. Por muitos motivos as variações do padrão sexual têm se tornado mais amplas, vivemos um tempo de muita destreza, mentes abertas e cus idem – o oposto também é verdadeiro –, em que as estrelas dos filmes deixaram de ser o pênis para ser a mão (e sua extensão, o antebraço) dos ativos e o cu (e sua extensão, o cólon) dos passivos.

Robert Mapplethorpe (1946-1989) foi o primeiro a mostrar o fisting em fotografia na exposição Erotic Pictures (Nova York, The Kitchen, 1977) que causou enorme comoção no Estados Unidos. Em 1986 nasceu, em compasso acelerado, o fisting musical no Brasil quando uma cantora baiana, usando saia muito curta, fez sucesso com uma música cujos versos convocava o povo a abrir a roda, enlarguecer (A Roda, Sarajane). Se a letra não fosse tão dúbia, ela se equiparia a Frank Zappa que na música Broken Hearts are for Assholes, do álbum Sheik Yerbouti (1979), fala em fistfuck de forma pioneira. Contudo não há (ainda) filme baiano ou brasileiro de fisting, se um dia existir há o risco que seja em versão carnavalizada.

Fist and Shout já não é lançamento, saiu em 2007 em dois discos, mas é um filme que não pode ser ignorado sob hipótese alguma pois coloca em novos e mais elevados parâmetros essa velha prática. Dirigido por David Hempling, que normalmente trabalha na pós-produção, é uma compilação dos filmes disponíveis online pela Fisting Central. A versão em DVD vem com o selo Raging Stallion, especializada em filmes leather. O trabalho da Fisting Central mostra os avanços da técnica de enlarguecer o ânus e as variações possíveis. Por trás desse espetáculo há o mago do pornô gay, o experiente diretor Chris Ward, que assina a produção com Michael Brandon.

As primeiras cenas de fisting no pornô gay feitas por um estúdio Europeu devem ser creditadas à French Art em Les Hommes Préfèrent les Hommes (1981) e Garçons de Plage (1982), ambos dirigidos por Jean-Daniel Cadinot, protagonizadas por Felipe Gambas. Nos Estados Unidos quem começou a mostrar cenas de fisting foi a Falcon Studios em Spring Break (1988), dirigido por Bill Clayton, com Chris Burns levando o braço de Cole Carpenter sob as vistas de Chad Douglas e Cory Monroe. Esses dois grandes estúdios contribuíram para a popularização da prática, evidenciando que ela havia saído do submundo e ganho o mainstream. O fisting não era uma especialidade da nenhum estúdio, como tornou-se atualmente. Aparecia eventualmente num ou outro filme. Não se pode dizer que é uma prática comum nos filmes leather, pois o exemplo dos filmes de Cadinot indica o contrário. Aparecia como uma seqüência especial, como no recente Communion (Hot House Entertainment, 2007). Tornou-se comum os estúdios oferecem duas versões do mesmo filme, com e sem fisting. A primeira só oferecida com reservas, a segunda mais acessível.

O fisting é um jogo cujo objetivo é dilatar o cu como for possível, usando paus, dildos, mão, antebraço, cotovelo, pés, cones de sinalização, até ele revirar, fazendo brotar no olhinhho uma grande flor escarlate. Com a visão dessa flor percebe-se que esses atletas são tão bonitos por dentro quanto por fora. Se alguém objetar que o cu não foi feito para tal uso ou se alguém duvida que eles ainda mantenham a função original depois de tanto abuso, recorro a um velho provérbio latino que o Membro Desonesto enviou: Abusus non tollit usum (o abuso não tira o uso) pois não creio que apenas a minha opinião baste para provar o contrário.

Fist and Shout é um filme sem roteiro mas com muito clima, o que é bastante no pornô gay que preza a economia de meios e abundância de fins. A ação é ininterrupta num cenário despojado de clube de sexo novaiorquino. Todas as funções técnicas do filme são irrelevantes diante da técnica dos atores. Torna-se desnecessário comentar sobre os dois tipos de lubrificantes usados, a trilha sonora, a indumentária fisting fashion ou a fotografia, basta dizer que são do nível profissional do país que fez do cinema uma grande indústria. Neste tipo de filme não pode ser empregado qualquer ator porque na ação há risco à integridade física. A pornovideografia é um trabalho árduo e revirar o cu no braço é muito mais. Fistar exige aprendizado e dedicação, é muito raro encontrar rapazes jovens que dominem a técnica e ao mesmo tempo tenham talento para os filmes. Os atores de Fist and Shout sabem como dar prazer ao amigo de uma forma que se for mal conduzida pode levar à morte. Eles são bonitos, sexy, másculos e atuam com incrível naturalidade e desenvoltura. O filme não é sombrio nem negativo, embora seja acessório no gênero, em Fist and Shout há demonstração de carinho, afeto e alegria em todas as seqüências.

Destaca-se a atuação de Matthieu Paris, um mancebo de 32 anos, mijador e francês que em parceria com Lee Heyford, um mestiço, asiático-britânico e tatuado, fazem a primeira seqüência do Disco 1. É um troca-troca sem luvas de fisting profundo, punching, duplo fisting e dildo até Paris tirar sangue de Heyford. Na seqüência seguinte vemos um clássico europeu entre Billy Berlin e Matthieu Paris, com uma indumentária leather impecável. Os dois esquentam o couro reciprocamente com dildos para, em seguida, Berlin, com um funil, encher o cu de Paris com lubrificante gel, meter-lhe o braço profundamente e em dose dupla. A terceira seqüência do Disco 1 é multi-racial com o bonito criolão Marc LaSalle, o asiático Lee Heyford e o branquelo Billy Berlin. A primeira bunda a levar braço é a de LaSalle, grande, redonda e gulosa, sua grande flor escarlate desabrocha de forma incomum. Em seguida Berlin oferece o seu bumbum de bebê para o afago dos amigos. O último a ser fistado é Heyford, mostrando habilidades que apenas Paris supera. Fisting em trio tem uma complexidade extra que permite recreação com bolas, work station a quatro mãos, um duplo fisting paralelo horizontal feito pelo ambidestro Heyford, além, claro, do popularíssimo fisting solo com LaSalle. Essa última seqüência é perfeita para encerrar o Disco 1 e criar as expectativas para o seguinte.

O Disco 2 começa de forma auspiciosa com o estreante Carlos Penate, um latino de grande técnica e o viril, sempre disposto, Matthieu Paris, praticando profundas braçadas sem luvas. A impressão que se tem é que Paris possui a cavidade abdominal inteiramente vazia para caber o antebraço de Penate até o cotovelo, uma extensão que, num homem adulto, pode ultrapassar os 40 cm. Paris é incrivelmente espetacular nas dimensões da largura e da profundidade. Lee Heyford e Billy Berlin fazem a seqüência seguinte um troca-troca que repete as performances do Disco 1, a particularidade dessa seqüência é a empatia entre os dois resulta num final terno que a edição enfatiza como parte de uma composição coerente e lógica. Na última seqüência Butch Grand recebe os convidados Violator (o único que não é fistado) e Matthieu Paris para um final épico. Violator tem o antebraço tatuado com uma escala de polegadas e Grand é o primeiro a sentir toda a extensão e habilidade desse membro. Paris também dá uma mãozinha para, em seguida, também ele levar o antebraço de Violator, que executa com Grand e Paris um memorável duplo fisting paralelo vertical. Depois o trio se embaralha em posições e manobras complexas demais para serem descritas. O Disco 2 encerra o filme acaba deixando lição até para os jardineiros: fiofó fistado fica uma flor.
Fist and Shout é um filme que consagra Matthieu Paris como um gênio do fisting. Não causa surpresa que um talento como ele tenha nascido na França e ganho notoriedade na América tal qual Miss Liberty e seu altivo braço. Em Mister Fister (Hot House / Club Inferno, 2007), dirigido por Michael Clift e atuando ao lado do bonitão Kent North, fica a dúvida se o título de Mister vai para Paris ou para North. Pouco importa, pela atuação de Paris em Fist and Shout ele já seria merecedor do título de Sir.

Saiba Mais:

Raging Stallion Studios

Fisting Central

Rear Stable

Matthieu Paris no MySpace